quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Conhecido Desconhecido

“As vivências terríveis fazem-nos pensar se o seu protagonista não é, ele próprio, algo de terrível.” 
  [Nietzsche]

Não somos todos iguais em nossas capacidades.

 Há terrenos (situações) muito áridos em que mesmo uma boa semente encontra várias limitações.

  Cérebros são como computadores, alguns são sofisticados com grande capacidade de cálculos e projeções outros nem tanto.
  Podemos melhorar o desempenho do cérebro que temos, mas se você não nasceu um Einstein... você não nasceu um Einstein.
  Não adianta acreditar que com dedicação e força de vontade vai virar um gênio.
  É igual ser um bom corredor de maratona, se você não tiver uma boa genética para esse esporte com muito treino pode ser um bom corredor, mas ser um campeão olímpico é muito difícil.
  Você pode chegar ao limite do seu corpo, mas o limite que o corpo do seu concorrente consegue chegar é maior.
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  Sabem quem morreu?

  Um “conhecido desconhecido” [nunca soube seu nome].
  Aquelas pessoas que você conheceu de vista quando criança sem ter acontecido um contato mais próximo como amizade, era aquele contato só de cumprimentar.
  Morava no Bairro São Bernardo um garoto com problemas mentais.
  No começo tínhamos medo dele ainda mais quando cresceu e se tornou um adolescente alto e forte, mas se mostrou inofensivo.
  Ele era mais de falar, mexer com as pessoas.
  A primeira lembrança marcante que tenho dele é que começou gratuitamente a me chamar de “bicha”.
  Era o cara me ver e já ia perguntando: “Onde vai bichinha?”
  Eu não dava atenção aí ele gritava: “Vem aqui viadinho!”
  Caraca! Aquilo já estava virando um incomodo.
  Na minha fase de manequim as pessoas comentavam que eu era gay, mas eu nunca me importei, acontece que o cara ficava gritando no meio da rua.

“Vai passear viadinho?”.

  Apesar de sua deficiência mental não teve jeito um dia corri atrás dele disposto a alguma violência se preciso fosse.
  O cara corria pra caramba! Parecia o Forrest Gump...HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAH!
  Não consegui alcança-lo, mas pelo menos ele parou de ficar gritando comigo.
  Os anos foram passando, a partir da “correria” ele me cumprimentava respeitosamente.
  Torcedor da Ponte Preta ele sempre comentava sobre o último jogo.
  Eu me limitava a concordar com ele.

  “A Ponte jogou bem ontem.”
  - É, foi muito bem.
 
  “Que jogo feio, mereceu perder.”
  - Fica para próxima.

  Ele ganhava algum dinheiro limpando caixas de gordura e tirando entulhos de quintais era o que sua limitação mental o permitia fazer.
  Imagino que ele achava bonito amigos tomando cerveja porque pegou a mania de ficar com uma garrafa de cerveja na mão oferecendo um gole a quem passasse.

  Hoje escrevendo me parece que ele queria “plantar amigos”, mas quantos querem ser amigo de deficiente mental?
  O máximo que conseguia colher era ser conhecido ...

  Sua família mudou do São Bernardo, mas ele não conseguia se desligar do Bairro, estava sempre por lá.
  Na feira livre de Domingo atuava como flanelinha.
  Na eleição do primeiro turno eu e minha esposa passamos na feira para comprar pastéis, minha esposa ficou no carro, era rápido, não pretendia ficar estacionado, o conhecido desconhecido pediu dinheiro para uma cervejinha... foi a última vez que o vimos.

  Uma outra mania que desenvolveu quando mudou de bairro foi fazer o caminho a pé entre os bairros, com um detalhe, ele gostava de andar no meio do estreito corredor exclusivo para ônibus da Avenida Amoreiras.
  Não tinha jeito de evitar que fizesse isso, acredito que não tem motorista de ônibus em Campinas que não tenha conhecido o desconhecido.
  Ele morreu atropelado por um ônibus.
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  Meu cérebro não é grande coisa, minha memória deixa a desejar, no entanto reconheço que minha qualidade de vida foi conquistada com minha capacidade de pensar, uma capacidade negada desde o nascimento ao conhecido desconhecido.

  Colhemos o que plantamos?

  Sei lá! Há tantas coisas que nem temos capacidade de plantar.
  No texto “Beira do Abismo” vimos que tantas pessoas colhem coisas boas que nunca plantaram, tiveram a sorte de ter pais ajuizados.

  Quem plantou a deficiência mental no conhecido desconhecido?

  Obra do Acaso, vontade de Deus, karma resgatado? O protagonista não é ele próprio algo de terrível?

  Sabem quem morreu?
  Já não importa mais, simplesmente façamos um minuto de silêncio mental em respeito a esses protagonistas de uma vivência tão limitada...
  Conhecido desconhecido DESCANSE EM PAZ!

  De todas as acusações a Filosofia o declara INOCENTE!





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