segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Morte de Einstein


“Não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.”
[Mateus 10:28]

  Se a tradução está certa esse pensamento fica meio sem sentido ao usar a palavra “perecer” que é sinônimo de morrer, extinguir.
  Segundo a Bíblia o inferno é uma lugar de sofrimento eterno, se meu corpo e alma forem extinguidos ... não existirei em lugar algum, nem no inferno.
  Não me parece de todo mal.

  “Se ocorrer a aniquilação não vejo porque será ruim!
  Deixarei de existir, não terei mais consciência de nada.”

   A palavra mais apropriada para Mateus 10:28 seria padecer.

  “Temei antes aquele que pode fazer padecer no inferno tanto a alma como o corpo.”

  Padecer é sobreviver com sofrimento.

  Parece que nossa moderna tecnologia (apesar das ótimas intenções) tem esse efeito colateral de nos manter nessa situação pavorosa.
 
  Vamos audaciosamente onde nenhuma mente jamais esteve...

  No verão de 1950, os médicos de Einstein descobriram que um aneurisma em sua aorta abdominal estava ficando maior.
  Os médicos tinham poucas opções de tratamento, envolveram o vaso sanguíneo inflamado com papel celofane na esperança de evitar uma hemorragia.
  Einstein recebeu bem a notícia
  Recusou quaisquer tentativas cirúrgicas adicionais para corrigir o problema.

   "Quero ir quando eu quiser.”
    É de mau gosto ficar prolongando a vida artificialmente.
    Fiz a minha parte, é hora de ir embora e vou fazê-lo com elegância".

  Em 18 de março de 1950, assinou seu testamento.
  Nomeou sua secretária, Helen Dukas, e amigo Otto Nathan como seus executores literários; deixou todos os seus manuscritos para a Universidade Hebraica de Jerusalém, a escola que ajudou a fundar em Israel; e legou seu violino para seu primeiro neto, Bernhard Caesar Einstein.

  Einstein é um pensador que admiro muito, evidente que isso não significa concordar 100%.
  Observamos a lógica, a clareza de seu raciocínio até na fase delicada que antecedeu seus últimos dias.
  Seria terrível uma consciência dessa qualidade passar seus últimos anos com demência, se fosse sua vontade e permitido por lei eu o mataria...

  Em alguns povos mais civilizados é possível pôr fim a vida quando o corpo está desenganado.

  E quando “o corpo está bem”, mas a mente desenganada?

  Nenhuma nação que conheço permite pôr fim a vida nessa situação mesmo que você deixe essa vontade registrada.
  Einstein permaneceu lúcido para cuidar da sua passagem/morte e quem não tem a mesma sorte?

  A demência afeta nossa consciência, não percebemos sua chegada.
  Como minha família tem casos de loucura é comum eu me fazer teste de lucidez.
  Quando percebo uma distorção da realidade verifico se tem uma explicação lógica ou se a distorção realmente ocorreu.

  Um exemplo simples.
  Fui publicar um texto, fiz minha costumeira revisão e decidi colocar um link na palavra deus.
  O link é programado para ficar azul, mas estranhamente ficou vermelho.
  Primeiro fiquei em dúvida se estava sonhando ou estava acordado.
  Me lembrava exatamente o que tinha acontecido nos últimos 15 minutos e tudo tinha uma sequência lógica.
  Sinal que eu estava acordado.
  Refiz o link, ele continuou vermelho, selecionei a palavra deus, coloquei a cor azul e ... continuou vermelho.
  Verifiquei outros links do texto e estavam na cor azul esperada.
  Minha dedução é que ocorreu “alguma interferência” e sim eu estava lúcido.

  Quando um “sinal” desse tipo acontece geralmente um pensamento invade minha mente.
  Fecho os olhos, respiro fundo e tento captar qual foi.
  (É complicado porque nem sempre tem a ver com o que estou escrevendo ou eu acredito que não tem)

  Os pensamentos foram:

a) Se eu ficasse demente gostaria de ser sacrificado.

b) Existe uma certeza generalizada que a pessoa com demência não sofre ... não estou tão certo disso.

  A pessoa demente vive eu um mundo de sonhos, uma realidade distorcida, como podemos estar certos que são sonhos e não pesadelos?

  O demente que esfaqueia uma pessoa, que monstro estará enxergando?

  O demente com sensação constante de perseguição, imagine o suplício.

  Li uma matéria onde uma senhora com Alzheimer se recusava terminantemente a descer da cama.
  Alguém mais observador notou que ela chegava a pisar onde tinha tapete, em uma fala desconexa ela parecia manifestar medo de afogamento.
  O piso da casa era porcelanato brilhante.
  Será que em sua demência aqueles reflexos eram as águas de um lago, oceano?
  Todo aquele brilho no chão foi coberto, a mulher passou a descer da cama sem problemas ... por algum tempo.
  A doença foi agravando e outras dificuldades surgindo.
  Já pensou que terror, você estar na sua cama e se ver cercado de água por todos os lados, todos os dias.

  Um "sonho" do qual não consegue acordar, na sua mente aquilo é real.

  Com a falta de comunicação fica difícil saber o que está passando na mente.
  A dificuldade pode vir de deficiente vocal ou falta de coerência das palavras

  Imagine ficar aprisionado por anos na demência.

  Deve ser como sua alma/consciência ficar algemada a um cadáver.

  Já tive pesadelos terríveis, chamam de terror noturno, acordava encharcado de suor, com o coração disparado, acordar era um alívio.

  Imagine ficar por anos em um ambiente surreal e não conseguir acordar.
  Quando eu olho nos olhos de alguém com demência o que vejo é isso.
  Alguém que está dormindo com os olhos abertos.
  Torço para que aquela mente esteja em um bom lugar (um sonho bom).
  Quando riem é sinal que sim, quando estão transtornados deduzo que é pesadelo.

  O duro é que enquanto o organismo comporta mesmo que precariamente a vida "seu espírito" não consegue se desprender totalmente.

  Teorizo que demência é uma das "traduções possíveis" do que seja alma penada.

  Eu defendo que as pessoas não deveriam ficar muito tempo mantidas por aparelhos, a não ser que tenham manifestado essa vontade.
  Concordo com a decisão do CFM em desligar os aparelhos, mas deveria ser uma regra geral, quem não quisesse ser desligado deveria se manifestar.
  Caso contrário seria desligado.

  “O Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou ontem uma resolução que permite que os médicos interrompam os tratamentos que prolongam a vida dos doentes quando eles estão em estado terminal e não têm chance de cura.
  De acordo com o texto, aprovado por unanimidade, isso só pode ocorrer se for a vontade explícita do próprio doente ou de seus familiares.”

  Defendo também começar a discussão sobre manter pessoas que visivelmente estão com demência avançada.
  Alzheimer é meu melhor exemplo.
  É muito sofrimento para os familiares, se os parentes em primeiro grau chegarem a um consenso o paciente poderia ser ... encerrado.

  Se eu ficar demente e não perceber, que alguém ou algo me mate por misericórdia.

  Um infarto fulminante nunca me pareceu tão bom, um arrebatamento.

  Sei que esse tipo de texto faz com que as pessoa me detestem ou me achem pouco, mas afirmo que estou lucido... acabei de fazer um teste.

  Antes de me detestar ... pense.

  'É uma perda em vida': Os desafios diante do Alzheimer, doença que põe em xeque a racionalidade




  “A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências.    
   O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada.”
[Albert Einstein]


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