segunda-feira, 9 de julho de 2012

Trabalho Infantil

  “O pesquisador reforçou que muitas famílias não enxergam o trabalho infantil como algo negativo para a criança ou o adolescente, o que dificulta romper com essa realidade.” [RAC]

Minha mãe teve sete filhos, dois morreram ainda bebês.

  Não vou entrar em detalhes, mas quando eu tinha por volta dos 10 anos a situação geral era a seguinte:
  Meio que fugidos do meu pai passamos a morar no fundo da casa da minha avó materna, minha mãe e 5 crianças sendo que a menos nova era minha irmã com 12 ou 13 anos.
  É óbvio que a situação problemática poderia ter sido amenizada se meus pais tivessem menos filhos ou ao menos meu pai assumisse toda a responsabilidade por colocar 5 pessoas no mundo, mas isso não aconteceu.
  Cuidar de 2 crianças é matematicamente mais fácil que cuidar de 5.
  A outra alternativa para amenizar a situação seria “socializar os prejuízos”, socializar as responsabilidades.
  Vamos supor que apesar da irresponsabilidade de meus pais minha mãe recebesse da sociedade um auxílio de Mil reais por mês.
  Dividido por 6 dá 166 reais por cabeça para passar o mês.
  Como não pagávamos aluguel seria uma quantia razoável para vivermos sem luxos.
  Minha mãe não poderia trabalhar, com tantos menores ela deveria ficar em casa.
  E eu?
  Mesmo que aparecesse algum bico para fazer teria que recusar porque “não é certo uma criança trabalhar”.

  Quando eu era criança não havia Bolsa Escola e mesmo hoje que tem não tenho notícias de alguém que chegue a ganhar mil reais com esse benefício.
  Minha mãe teve que trabalhar muito e nós ficávamos em casa sozinhos cuidando um do outro, minha irmã cozinhava.
  Cada um lavava sua roupa e organizava alguma coisa na casa.
  Um vizinho, criança necessitada também, me arrumou um trabalho na feira livre.
  Trabalhar com 11 anos não foi algo magnifico, foi fruto da falta de planejamento dos meus pais.
  Com certeza meus pais não fizeram por mal, mas ACONTECEU.
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  Você acha justo mesmo eu podendo fazer algo para amenizar meu sofrimento ser impedido de fazê-lo?

  Apenas o salário da minha mãe não era o suficiente nem para nos alimentarmos aceitavelmente.
  As coisas “iriam” ficar um pouco menos menos pior quando com 14 anos consegui meu primeiro emprego registrado em uma metalúrgica.
   No entanto, meu irmão caçula nasceu com uma grave doença [Hidrocefalia] e minha mãe praticamente parou de trabalhar, fazia uma faxina ou outra.
  Tempos difíceis, muito, muito difíceis.
  Embora a letra daquela música Marvin dos Titãs não seja a minha história, a primeira vez que a ouvi chorei muito, aquele sentimento eu conhecia de cor, até hoje quando a escuto, dependendo do dia tudo volta em minha mente e fica difícil conter as lágrimas, não tanto por mim, mas por todos que ainda passam por situações semelhantes.
  Por isso escrevo tanto sobre PATERNIDADE RESPONSAVEL.

 “William, agora é só você
  E não vai adiantar
  Chorar vai só fazer sofrer

  William, a vida é pra valer
   Deus fez o seu melhor
   E o seu destino eu sei de cor.

   E aos 14 anos de idade eu sentia
  Todo o peso do mundo em minhas costas
   Eu queria jogar, mas perdi a aposta.” ♫♫♫

  A letra não é assim, mas é assim que ela falava comigo.
▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬
  Nossa sociedade deveria incentivar o planejamento familiar e ver com maus olhos pessoas que vão tendo filhos como se tivessem fazendo um favor para a sociedade.

  O planeta tem 7 bilhões de pessoas se tem uma coisa que a Terra não precisa é de mais gente.

  Depois que o navio [família] afundou impedir as crianças de pegarem um bote salva vidas [Trabalho] é uma tremenda sacanagem, uma bobagem psicológica.
  É impedir a pessoa de seguir seu instinto básico de SOBREVIVÊNCIA.
  Se a criança tem necessidade ou vontade de trabalhar aos 14 anos isso deveria ser permitido sem conferir-lhe tantos privilégios que inviabilizam a contratação ou que fosse uma contratação apenas por caridade.
  Eu trabalhava na metalúrgica de dia e estudava a noite.
  “Ah, mas isto não é justo!”.

  Caraca! O barco estava afundando vocês queriam que eu fizesse o que?
  Ainda bem que me deram serviço na metalúrgica, ainda bem que tinha escola perto de casa para eu estudar.
                                         
  Traçando um paralelo quero dizer que em um mundo ideal não teríamos deficientes físicos, mas eles existem e temos que possibilitar meios para que eles sejam tão independentes quanto possível.
  Da mesma forma em um mundo ideal todos os pais seriam responsáveis e um menor poderia optar por trabalhar só depois de formado na Faculdade, mas se famílias desestruturadas existem não devemos privar as crianças de buscarem independência.

  Eu e meus irmãos temos casa própria, boa alimentação, cuidamos bem de nossos filhos, tudo fruto do trabalho e estudo, temos até alguns luxos.
  Minha filha tem 12 anos e nem penso em coloca-la para trabalhar, mas se aos 14 anos ela demonstrasse vontade defendo o DIREITO dela poder trabalhar totalmente legalizada.

  Registro em carteira deveria ser possível a partir dos 14 anos.

 E quanto aquela garota que nasce em uma família muito pobre?
 Para ela trabalhar conseguir algum dinheiro é uma necessidade.
  Permitir que essa garota trabalhe devidamente registrada e ganhe de acordo com sua eficiência considero nosso DEVER nossa OBRIGAÇÃO!
  Ninguém deve trabalhar em condições subumanas, não importa se é maior de 18 anos.
  Minha filha de 12 anos é muito falante, daqui 2 anos ela teria totais condições de trabalhar como atendente de loja ou caixa de supermercado ou até em uma linha de produção, mas A LEI NÃO PERMITE!
  Ainda bem que minha filha não precisa, fico muito triste por aquela garota que precisa muito de um emprego.
  O trabalho para ela [apesar dos pesares] seria uma grande BENÇÃO!
  Mas “tudo bem”, ela sempre poderá se prostituir o que não falta nesse mundo é pedófilo, ou poderá vender bala em um sinaleiro qualquer, o garoto será muito bem recebido no mundo do crime ele tem algo muito valioso a impunidade.

  “Tudo está tão certo que parece errado!”
  Ai de mim, ai de mim... só mesmo um gemido de dor para expressar o que sinto!


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