terça-feira, 12 de março de 2013

Povo do Bem

    Carlão baleado olha para o céu como se perguntasse:
  Porque Deus!?

  Certas histórias que assisti ou li permanecem na minha mente como um divisor de águas, algo novo, surpreendente.
  Uma delas foi a novela Pecado Capital.
  Não lembro da história em detalhes, mas lembro exatamente o que me marcou.



  Carlão era um motorista de táxi, ocorre um assalto e na fuga o bandido usa seu táxi.
  Carlão fica evidentemente muito assustado, pode até morrer, mas o ladrão salta do táxi e continua a fuga da polícia.
  Nisso Carlão se afasta rapidamente de toda aquela confusão aliviado por não ter levado um tiro.
  Ao chegar na sua casa percebe que o bandido na fuga deixou uma maleta no táxi.
  Escondido no quarto abre a maleta e está recheada de dinheiro, uma quantia fabulosa.
  Fica naquele dilema moral, devolver o dinheiro ou ficar com o dinheiro.
  Ele olha os noticiários e não vê seu táxi mencionado nenhuma vez, a polícia não faz a menor ideia de onde está o dinheiro.
  Caraca!
  Carlão tinha tantos sonhos, aquele dinheiro poderia realizar boa parte deles...

  Para encurtar a história, Carlão optou pelo “errado”, ficou com o dinheiro.
  A trama é complexa, mas lá no final da história Carlão tinha se transformado em um rico empresário dono de uma frota de táxis.
  Coisa que provavelmente nunca aconteceria sem aquele “desvio moral” de ficar com um dinheiro que não era seu.
  Com trabalho e competência ele multiplicou várias vezes o dinheiro do assalto.
  Carlão decidiu fazer o certo, resolveu devolver o dinheiro.
  O que aconteceu?
  Carlão foi morto!
  Quando vi Carlão levando os tiros não queria acreditar, não era possível, devia ser um pesadelo, mas na novela era a mais pura realidade.
  Enquanto ele fez o errado viveu bem, quando resolveu fazer o certo aconteceu o mal.

  Eu era bem criança e aquilo me deixou um tanto traumatizado, era como se tivesse morrido alguém da família.

  CARLÃO MORREU POR FAZER O CERTO, POR TENTAR CORRIGIR SEU ERRO.

  Isso é o que mais me incomodava.

  Eu cresci e percebi que se a injustiça é uma exceção no mundo das novelas na vida real acontece muito.
▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬
   “Se eu atirasse num homem e ele caísse no chão e se arrastasse, mas não morresse ali, eu não podia registrar oficialmente esta morte.
  Mas eu sabia onde havia acertado e sabia que ele iria morrer.
  Por isso há diferença entre os números do Pentágono (160) e os meus (255), extraoficiais.” 



  Vejam o caso desse atirador, como deve ser matar 250 pessoas?
  Tá certo ele estava em guerra, mas são 250 pessoas.

  O caso do Carlão é semelhante, ele não praticou o assalto.
  Para o Banco que foi roubado a quantia não era tão significativa.

  Senhoras e senhores Chris Kyle voltou saudável da guerra e se aposentou do exército, bom pai, bom marido, um ótimo cidadão que passou a se dedicar a dar assistência a soldados com trauma de guerra.
  Quando estava praticando o bem foi morto por um desses ex soldados.
  A arte imita a vida ou é uma extensão dela?

   UMA DAS GRANDES MENTIRAS QUE CONTAM PARA NÓS É QUE ENQUANTO ESTIVERMOS FAZENDO O BEM TEMOS UMA ESPÉCIE DE PROTEÇÃO NATURAL.

 “A um homem bom não é possível que ocorra nenhum mal, nem em vida nem em morte.” 

  Eu mesmo acreditei nisso por muito tempo, apesar de ter sido alertado em Pecado Capital que essa “proteção natural ou espiritual” do “homem bom” é uma REALIDADE INVENTADA.

  “Pessoas querem que a vida seja de um jeito teórico e se a pratica não confirma a teoria tentam apagar do conhecimento tudo que não dê sustentação a ideologia.”

  Sei que pessoas boas tem uma disposição natural em praticar o bem, fazer o que é certo.
  Mas tome cuidado, analise as consequências, não tenha a ILUSÃO que por praticar o bem estará protegido.
  Me ferrei muito na vida acreditando nisso, confesso que a Fé em algum tipo de justiça divina me fez passar por dificuldades que eu não precisava ter passado.
  Sei que é duro mudar nossa natureza e nem estou sugerindo que você faça isso com relação ao seu nobre desejo de praticar o bem, apenas reflita melhor sobre as consequências.

  Por esses dias eu tive que ignorar um regulamento para ajudar uma mãe com uma criança doente, eu sabia que tinha 90% de chance de me ferrar, mas não podia deixar de ajudar.
  Minha dor na consciência de não ajudar seria pior que a possível punição que eu iria sofrer.
  Bem, a matemática é implacável, eu ajudei e fui punido.
  Se fosse antes eu ficaria muito indignado, seria como o Carlão levando o tiro.
  Mas hoje eu simplesmente [mesmo praticando o bem] penso nas consequências e me preparo para elas caso sejam “desagradáveis”.
  Não tenho essa ilusão da proteção natural ou espiritual.

  Também não tenho a ilusão/crença que nós humanos somos naturalmente maus.

  Li o seguinte comentário no Google+:

  “O Homem não faz o certo devido a maldade em seu coração.”

  Lamento pelo autor da frase que sugere só ter conhecido homens cheios de maldade no coração.
  No meu coração não tem tanta maldade e não sou exceção à regra.
  A grande maioria das pessoas que conheço são trabalhadoras, honestas gente de bom coração.
  Quando ocorre uma tragédia qualquer, sempre tem os oportunistas que não se importam com a dor alheia, mas a grande maioria quer ajudar, ser útil, manda doações, é fácil encontrar inúmeros heróis anônimos.

  Esse texto é para você pessoa de bom coração, meu querido “povo do bem.”

  Mesmo ao fazer o que acha certo, mesmo ao praticar o bem... não deixe de PENSAR, não deixe de usar o bom senso, não deixe a INTELIGÊNCIA de lado.

  A inteligência, para nós criaturas, na maioria das vezes é a única proteção natural que dispomos, ameniza consequências desagradáveis e nos imuniza contra DECEPÇÕES.

  Quem pratica o bem e a caridade precisa estar preparado para suportar a injustiça e ingratidão.

  Porque é preciso viver e viver não é brincadeira não... ♫♫♫♫






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