sábado, 24 de novembro de 2012

AMIGO OU INIMIGO?

  “Nos momentos difíceis descobrimos quem realmente somos e as vezes não é o que gostaríamos de ser.”
   [William Robson]
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  A situação é Exército, refeitório de soldados da 11ª Companhia de Comando da Brigada.
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  Sentado na minha frente está o soldado Pedro que começa a ter um comportamento estranho.
  Mastigava com a boca bem aberta, falava sem muito cuidado literalmente cuspindo no meu bandejão e se divertia com a situação.
  Garotos de 18 anos fazem coisas patéticas eu já estava acostumado o que não estava acostumado era ser vítima de bullying. [Para usar o termo da moda].
  Claro que já tinham tentado me intimidar nos anos de escola, mas não é bem da minha natureza aceitar ser subjugado.
  Eram mesas longas, uns 10 soldados aguardavam minha reação.
  Pessoas como o soldado Pedro não mexem com pessoas tão fortes quanto elas só provocam  quem elas supõe que sejam frágeis, a imagem que ele projetava de mim era de um indivíduo frágil.
  Em termos de Brasil sou relativamente alto, tenho 1,80, mas com 18 anos pesava 63 quilos, o filé de borboleta William era um alvo fácil para ser atacado.

  Eu aguentei o quanto pude, estava com muito medo, não do soldado Pedro, mas de mim mesmo.

  Eu estava em uma fase suicida e o único pensamento que vinha em minha mente era espetar meu garfo na garganta dele.
  Porque o garfo e não a faca?
  Sei lá, eu queria ver muito sangue, para encher a mesa de sangue o garfo me parecia mais apropriado, a faca poderia provocar apenas hemorragia interna.
  Segurei o garfo com mais força e me preparei para desferir o golpe iria ser certeiro, não tinha como errar, respirei fundo e ... descobri que não era capaz.
  A imagem que eu projetava de mim mesmo não correspondia a realidade, não sou um assassino.
  Sei que sou capaz de matar, mas não naquela situação.
  Lembrei do meu amigo Sócrates, com seus questionamentos desconcertantes irritou tanto um indivíduo que ele lhe deu um chute, Sócrates tinha plenas condições de revidar, mas não fez isso.
  Seus colegas perguntaram porque ele não chutou o homem também?

  “Se um burro lhe der um coice, chutar o burro não o tornará burro também?”

  [Não vem ao caso agora, mas Sócrates sabia que seu questionamento de certo tinha machucado mais o homem internamente que o chute que ele havia desferido em Sócrates.]

  O Pedro era um idiota, mas não merecia morrer.
  Se ao menos ele estivesse tentando me matar seria legitima defesa, no entanto ele estava apenas me dando um “coice”.
  De qualquer forma a situação pedia uma ação drástica, era o primeiro ou segundo mês de exército, tinha praticamente 1 ano pela frente eu não iria passar esse tempo todo sendo humilhado.
  Encarei o Pedro e disse algo mais ou menos assim:

  “Cara, até minutos atrás nós éramos amigos agora me parece que você quer ser meu inimigo.
  É melhor se decidir porque eu não gosto de falsidade, eu vou te dizer o que irá acontecer.
  No “MÍNIMO” eu vou jogar minha bandeja em você, no mínimo você irá me mandar para o hospital e no mínimo ficará um mês na cadeia, decide agora...
  AMIGO OU INIMIGO?”

  Surpresa!!
  O cara falou amigo.
  “Eu também não gosto de falsidade”.
  Oras vejam só, o Pedro não era tão burro, ainda bem que “eu” não dei o coice...
  To be Continued...



PS:  Anos depois reencontrei o Pedro em uma situação surreal, acho que ainda não contei aqui, ele não me reconheceu, com anos de musculação me tornei um homem muito forte, alguém que o soldado Pedro não mexeria. 
  Ele se tornou policial anda nesses helicópteros da polícia militar, deu até uma entrevista na TV.
  Vida longa e próspera ao Pedro!

  “Porque o conflito parece inevitável em nossas vidas por nossas muitas diferenças, mas temos o poder de minimizar seus impactos com a ajuda do bom senso.” 
 [Daniel no G+]


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