segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Aposentados Vagabundos

  “A maior ambição do ser humano é querer colher aquilo que não plantou.” [Adam Smith]

  O título é forte, mas não se impressionem com ele, é só para chacoalhar as mentes.

  Gostamos de criticar políticos, esquecemos que eles são gente como a gente nem melhores nem piores que a média do comportamento humano.
  Se fazem coisas louváveis devem ser prestigiados se fazem coisas repreensíveis devem ser questionados, analisados e punidos ou absolvidos.

  É importante nos concentrarmos na ação do indivíduo, generalizações são ilógicas/ineficientes.

  Se o Deputado William Cunha recebeu 5 milhões de dólares em propina puna-se o deputado William; não há motivo para demonizar o Deputado José da Silva ou toda bancada ateia.

  Por vezes o indivíduo nem faz algo errado ele simplesmente exerce um direito se o direito está provocando graves disparidades nós enquanto sociedade precisamos rever nossos conceitos é disso que trataremos nessa viagem pelo abismo dos pensamentos.
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  Minha mãe poderia ter estudado mais, mas estudou pouco, apenas concluiu a quarta série.

  Embora de família muito pobre nada a impedia de concluir ao menos o colegial, havia escolas gratuitas perto de casa.
  Fazer faculdade seria um enorme desafio, mas nos anos que ela viveu sua juventude, concluir o ginásio e ter um pouco de juízo já lhe garantiria um bom padrão de vida.
  Apesar de viver sua adolescência em tempos que presava-se mais pela moral e bom costume ... engravidou aos 15 anos.
  Depois com uns 17 anos teve eu.
  Nasceram mais 5 com duas mortes ainda bebês.
  O fato é que com tantos filhos e pouco estudo minha mãe conseguia aqueles empregos que exigem menor especialização, basicamente trabalhou como auxiliar de limpeza, auxiliar de cozinha, balconista ...
  No início da década de 80 prestou concurso público, foi contratada como servente escolar, nessa época não se exigia muito, bastava ler e escrever.
  Antigamente em SP tinha concursos internos e em um desses minha mãe foi transferida para fazer café na Secretaria da Fazenda do Estado.
  Minha mãe teve sorte.
  A partir da década de 80 o serviço público começou a passar por uma valorização jamais vista.
  A Secretária da Fazenda terceirizou o serviço de limpeza e minha mãe foi alçada a serviços administrativos.
  Isso mesmo.
  Um posto que hoje em dia você precisa estudar muito e concorrer com milhares de pessoas caiu no colo de graça para pessoas que eram do serviço de limpeza.
  As regalias foram se somando.
  Fora os aumentos do dissídio que começaram a ser generosos ainda tinha aumentos diferenciados a cada 5 anos.
  Podia-se ter 6 faltas abonadas no ano, fora férias, recesso de final de ano e emendar todos os feriados possíveis e imagináveis.
  Se minha mãe precisasse sair mais cedo ... tudo bem.
  Alguma colega preenchia o cartão e depois em outro dia o favor era retribuído.
  Mesmo com essa melhora substancial nas condições de trabalho minha mãe vivia reclamando, nada do que o Estado fizesse era suficiente.
  No início ela gostava do Franco Montoro, foi nessa fase que ela saiu da limpeza e foi para o administrativo.
  Mas no final do Governo já o detestava e detestou todos os Governadores que o sucederam.

  Para os servidores um Governador só é bom se dá aumentos substanciais acima da inflação e possibilita cada vez mais mordomias e benefícios.

  Como os servidores se tornaram insaciáveis e tem um limite de quanto se pode cobrar de impostos ... via de regra os servidores e governadores na maior parte do tempo seguem em lados opostos, os primeiros exigindo muitos gastos e o Governador propondo corte de gastos.
  Não é que o Governador não queira ceder ao populismo é que realmente não há dinheiro, é vestir um “movimento social” e desvestir outro, é aumentar os salários da Educação e congelar os salários da Segurança.

  Na década de 90 por motivo de saúde minha mãe começou a faltar muito ao serviço, mais do que o habitual.
  Mais tarde descobriu que o coração estava fraco e foi indicado a colocação de marca-passo ... tudo pago pelo dinheiro dos impostos do SUS.
  O fato é que de 199X até minha mãe se aposentar em 200X  (não lembro as datas ao certo ) ela trabalhava bem pouco, eram atestados médicos longos sempre renovados.
  Minha mãe foi aconselhada a se aposentar por invalidez, mas ela não aceitava pois seu salário seria diminuído.
  Ela preferia ganhar sem trabalhar.
  Toda essa introdução foi só vaselina, agora o texto começa de fato.
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  Na empresa que estou inúmeros servidores exercem o direito de ganhar sem trabalhar.

  Eles têm o direito de se aposentar e continuar trabalhando.
  Aposentar eles se aposentam.
  No papel eles continuam trabalhando.
  Na prática a realidade é bem outra.

  A maioria continua trabalhando eficientemente.

   No entanto, muitos aposentados, com o salário do INSS já garantido eles tentam garantir o salário da empresa trabalhando o mínimo de dias possível.
  Os atestados médicos tornam-se uma constante.
  Vão ao médico reclamando de tonturas ou dores localizadas e os atestados saem fácil.
  Até porque é muito difícil depois dos 60 anos você não ter nenhuma complicação como diabetes, hipertensão, sequela de alguma coisa, dores na coluna ou em algum músculo usado por muitos anos.
  O corpo é uma máquina biológica e como toda máquina mais cedo ou mais tarde começa a falhar.

  O problema é detectar por meio de exames até que ponto um desgaste impede uma pessoa de trabalhar.

  O médico fica muito dependente do indivíduo dizer o que está sentindo e o indivíduo pode dizer qualquer coisa.
  Na Empresa eu vejo muita gente pegando atestados prolongados dizendo não conseguir trabalhar, mas passear no Shopping ou fazer viagens turísticas ...  a doença não impede.
  Tem gente que diz não suportar mais o computador, mas não sai do Face e do “Zap zap”!
  Doença seletiva não!?
  Tem doença ainda mais seletiva.
  Ela começa no final de Novembro e vai até depois do Carnaval, depois o cidadão pega seu mês de férias ...
  Tudo perfeitamente legal.
  Não esqueçamos as tradicionais greves.

  O fato é que muitos funcionários enforcam pelo menos 4 meses de trabalho e recebem.

  Essas pessoas reclamam dos políticos, mas imaginem elas no Congresso Nacional.

  No serviço público licenças psiquiátricas são bem comuns.
  A pessoa faz uma ceninha e ganha um atestado de estresse.
  Por vezes não dá licença, mas ela é premiada com serviços mais leves com menor responsabilidade sem redução de salário é claro.
  Tem gente que recebe atestado psiquiátrico para não lidar diretamente com o público o supervisor/diretor tem que inventar uma ocupação para pessoa.
  O incrível é que essa pessoa que não pode ter contato direto com o público faz bico no comércio da família, vende Natura, vende Avon.
  Minha mãe tinha licença para não trabalhar, mas em casa vendia bijuterias, cosméticos, roupas.

  Na empresa há casos surreais que só são possíveis no serviço público.
  Dependendo do regime de trabalho do funcionário ao se aposentar ele não precisa devolver o crachá funcional.
  É, ele tem entrada livre enquanto viver, com direito a almoço, janta, transporte gratuito...
  O cara não tem nada para fazer em casa fica passeando pela empresa.
  Uma pessoa nova chega não tem armário, mas o “funcionário” que não trabalha tem.

  É, você tem razão esse texto vai me indispor com muitos conhecidos, mas eu não me importo, entenda porquê, veja um exemplo:

  Tem um posto onde é feito o controle de visitas a pacientes internados no hospital.
  Para funcionar “satisfatoriamente” [você que paga impostos ser razoavelmente bem atendido] esse setor precisa de 4 pessoas.
  Com tantas licenças médicas, na maior parte do tempo opera com 3 e não raro 2.
  Claro que o atendimento fica comprometido e quem vai trabalhar trabalha muito mais.
  Sábado e Domingo são os dias com mais visitantes, cerca de 800.
  Várias vezes ficou apenas eu e mais um funcionário para atender esse grande fluxo de pessoas.

  Você acha que algum dos “companheiros” de trabalho que ficarem indignados com esse texto se preocupam com meu desgaste?
  Ninguém tá nem aí.
  O cidadão está em casa curtindo a família e nem lembra que eu existo.
  Está no churrasco ou na piscina e nem está pensando em empresa ou trabalho.
  O importante é que dia 6 o salário dele estará depositado, foda-se quem trabalhou sobrecarregado ou o usuário que foi mal atendido por falta de funcionários.
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  Deveria ter uma lei no serviço público onde o servidor já aposentado que claramente está sendo um estorvo seria afastado compulsoriamente sem direito a indenizações.

  Se a ausência do trabalho supera 30 dias e não é muito bem justificada o caso deveria ir para analise se compensa manter esse funcionário.
  Se é uma cirurgia de apêndice [só um exemplo] com recuperação plena tudo bem.
  Se o cidadão tem problema crônico de pressão, coluna, tendinite ... doenças “misteriosas” que o levam a constantes afastamentos, deveria ser afastado compulsoriamente para o bem do serviço público.
 
  O servidor que não está aposentado, mas claramente não cumpre com suas funções deveria ser demitido, nesse caso, com direito a indenizações trabalhistas.
  A estabilidade no Serviço Público nos moldes que esta deveria ser revista urgentemente.
  Hoje em dia temos muitos recursos tecnológicos para provar por A + B que o funcionário é relapso ou ineficiente.

  Sou a favor de reuniões disciplinares com a chefia serem gravadas em áudio e vídeo para se preciso serem apresentadas em juízo.

  Há inúmeros casos do funcionário ser chamado atenção por falhas graves, ele manda o supervisor a peta que puril ... e não dá nada.
  O supervisor, diretor, Heitor, Governador, Presidente da República não tem “na pratica” poder para demitir/exonerar um funcionário público a não ser em casos extremamente graves ...  assassinatos, roubos ... crimes graves muito bem comprovados.

    O sonho dos funcionários aposentados “problemas” que continuam “trabalhando” é serem demitidos.
  Não é para menos, pelas normas atuais caso o Governo os demita ganharão uma gorda indenização, estou falando de 400 mil para os salários mais baixos, para os que ganham mais ... imaginem, o céu é o limite.
  A situação é ótima para eles.
  Já tem a aposentadoria garantida, nos últimos anos trabalham quando querem e como prêmio pela estorvo levam 400 mil.
  “Brasil um país de poucos.”
  Claro que quem banca toda essa festa é você da empresa privada.
  Pense nisso quando se posicionar radicalmente contra privatizações.
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    E a situação que o aposentado realmente tem dificuldades físicas, quando não é malandragem?

  Caraca! A aposentadoria existe para isso se não aguenta mais trabalhar não trabalhe.
  Mal ou bem o cidadão já tem garantido uma renda, os filhos a certa altura da vida já devem estar criados, se o idoso teve juízo pelo menos tem uma casa para morar.
  A maioria das doenças da velhice são atendidas no SUS e os remédios também são bancados com o dinheiro dos impostos.
  Já fizemos esse cálculo.
  A partir do quarto ano de aposentadoria quem banca o aposentado é o conjunto da sociedade e banca também os remédios e tratamentos médicos.
  O aposentado que continua no serviço público sem trabalhar dá um prejuízo enorme.
  Ele tira a vaga de um cidadão saudável que sairia da fila do desemprego e trabalharia com muito mais eficiência.
  Ele sobrecarrega o funcionário público correto que cumpre com suas funções.
  Ele dá prejuízo para a Estatal que desembolsa o pagamento integral de um funcionário que não trabalha ou trabalha metade do tempo.

  Mais dia menos dia eu terei direito a me aposentar e continuar trabalhando, mas sou um funcionário público correto só continuarei se estiver saudável e não for um estorvo para empresa e companheiros de trabalho.
  Eu não sou uma exceção à regra quando me comporto corretamente, tem muito trabalhador correto, gente que dá gosto trabalhar ao lado.
  Sou uma exceção à regra no sentido de ser correto e cobrar correção.
  Os trabalhadores corretos que eu conheço fecham os olhos para incorreção de outros.
  Não me incomoda muito o fato de tantos brasileiros de todas as idades quererem ganhar sem trabalhar.
  Me incomoda que a maioria correta permita que isso aconteça.
  E você, é correto ou VAGABUNDO?

“Obrigado” por vir trabalhar.



  Logo você tão preguiçoso falando sobre vagabundagem!?
 (Muitos devem estar resmungando)

  Não sou do tipo de pessoa que sai por aí dizendo não ter medo de nada, na verdade sou bem medroso, tenho medo/fobia até de sair de casa.
  Não gosto de sentir medo, mas sinto, não escolhemos o que sentir.
  No entanto o medo não me paralisa, eu faço o que tenho que fazer.
  Com a preguiça é a mesma coisa.
  Você acha que eu não gostaria de acordar bem disposto, radiante!?
  Já fui chamado de vagabundo, a empresa precisou me transferir para o período da tarde e fiquei sabendo por um colega que algumas pessoas da manhã me rotularam de “meio vagabundo”.
  Quando trabalhei no turno da manhã sempre cumpri com minhas obrigações, não faltei, não levei atestado, não saí mais cedo ou entrei mais tarde, respeitei meus superiores, nenhum colega teve que fazer o meu serviço ... qual o critério para me rotularem de vagabundo!?

    Quando me perguntam se gosto de trabalhar sou bem claro:
NÃO.
  Eu não gosto de ter que trabalhar, porque devo mentir para as pessoas!?
  Eu queria trabalhar em algo que eu gostasse, escritor por exemplo, e não em algo que tenho que aturar para ganhar o pão de cada dia.
  Todos que trabalham comigo sabem do meu profissionalismo, eu não gosto de trabalhar, mas TRABALHO.
  Se todos os “vagabundos” fossem ao menos iguais eu acredito que o Brasil seria um dos países mais produtivos do mundo.
▬▬▬//▬▬▬
  [Não consigo parar de escrever.
  Para forçar um desligamento desse texto vamos a um pensamento selvagem.]

  Deus tem falado muito comigo, na verdade ... são gargalhadas na maior parte do tempo.

  Na Sexta dia 09/10/2015 fui comunicado pela direção que Terça Feira 13/10/2015, por falta de funcionários serei desviado de posto e trabalharei sozinho em um setor que precisa de dois.
  Fui escolhido porque acreditam que eu sou um dos poucos que conseguem dar conta do recado nessa condição precária.
  Deixei bem claro a direção que elogios não significam nada para mim.
  É ordem eu cumpro, mas deixei registrado minha contrariedade.
  Por ser correto, trabalhar direito, meu prêmio é mais trabalho!

  Você que diz que nenhum funcionário público trabalha deveria ver o que fazem com os funcionários público corretos.

   Ao receber o comunicado do que me espera na Terça Feira tive meu momento com Deus:

  Eu – Porque me fizestes correto, o Senhor não vai com minha cara?

  Deus – HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAH!

  Por esses dias uma colega da manhã ao se despedir e me deixar sozinho no posto disse: Fique com Deus!

  Eu – Ele vai ficar no computador ou dando baixa nas etiquetas?

  Minha colega não disse nada, mas eu pude ouvir.

Deus - HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH! Esse William é hilário, já trabalhei 6 dias e não gostei, se vira criatura...HAHAHAHAHAAHAHAHAHAAH!

  "Se você fala com Deus, você é religioso. Se Deus fala com você, você é um psicótico." [House]

  Acho que estou precisando de uma licença psiquiátrica...  


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