terça-feira, 22 de novembro de 2011

Fora de Rumo

 “Depois de seis anos em coma após derrame, Ariel Sharon ainda resiste.
[The New York Times - 25/10/2011]


  Como deve ser ficar no "escuro" por 6 anos?

  Quando estamos com saúde a morte sempre nos parece muito distante, algo que só acontece com os outros.
  É fácil ser corajoso quando a ameaça não pode ser vista no horizonte, quando escrevo levo muito em consideração esse fator, espero que quem lê o leve também.
  Para ilustrar quero que pense em um medo comum a muitas pessoas, o medo de ficar no escuro.
  É raro faltar energia em meu bairro então o escuro não é uma "ameaça" que eu fique pensando, não esta no meu horizonte.

  Em local iluminado, com minima possibilidade de faltar luz ... o medo do escuro fica tão distante/esquecido que é como se não tivéssemos.

  No conforto iluminado da nossa casa rimos com gosto de uma vídeo cassetada em que alguém fique assustado no escuro.

"É fácil ser corajoso quando a ameaça não pode ser vista no horizonte."

  Muitos conselhos "bonitos" que recebemos são de pessoas corajosas porque não estão vivendo nossa situação.
  Falar para o outro ser forte é fácil, sermos fortes é bem mais complicado.

  Para praticar filosofia de boa qualidade a empatia é fundamental.

  Empatia é a capacidade mental de sentirmos o que sentiria uma outra pessoa caso estivessemos na mesma situação vivenciada por ela.

  Tentar compreender sentimentos e emoções, se colocar no lugar do outro.
  Sem contudo abandonar a racionalidade.

  Fica menos difícil entender o sentimento dos outros se já passamos pela mesma situação.
  Entretanto se abandonamos a racionalidade começamos a ver o outro como  extensão de nós mesmos e não é bem assim.
  Nossas reações emocionais diante dos acontecimentos são tão diferenciadas quanto nossas digitais.

  O que eu sinto quando estou no escuro dificilmente será exatamente o que você sente.
  Vamos seguir por esse caminho...

  Para não ficar revirando o passado distante ... faz pouco tempo minha esposa e filhas estavam de férias no Paraná.
  Uma noite acabou a energia elétrica, demorou pra voltar, fiquei ali no escuro, sozinho.
  No caso do apartamento não dá para ficar com medo, como fica no alto sempre chega alguma claridade de fora, no corredor tem luz de emergência, no entanto é uma situação bem incomoda.

  Sem TV, computador, sem ninguém por perto é como se eu ficasse uma radio sem sinal pronto para captar qualquer oscilação de energia a minha volta.

  O fogão funciona, dá para comer alguma coisa, mas ficar sozinho em uma sala escura com velas acesas, no meu caso prefiro não acender a vela, não me pergunte porque, não tenho explicação para tudo.
  Talvez porque minha vista se acostume com a escuridão e as oscilações luminosas da vela impessam essa adaptação, perto da vela fica um pouco claro e longe dela tudo parece ainda mais escuro, é eu sei, hoje temos eficientes lâmpadas de leds, vou comprar, eu adoro a tecnologia.😊

  


  Saiamos do apartamento, aqui só encontraremos um leve desconforto.

  O prédio que trabalho é bem grande, longos corredores, muitas portas, um prédio que com certeza guarda muitas "energias".
  Não gostaria nem um pouco de passar sozinho a noite ali totalmente no escuro, se estivesse muito cansado talvez até conseguisse dormir, mas teria que estar extremamente cansado, é mais provável que passasse a maior parte do tempo acordado.
  Eu analisei essas sensações e a primeira coisa que me veio a mente foi: "porque o medo do escuro" do "silêncio profundo"!?
  Logo eu que persigo um certo isolamento, estou até habituado a uma solidão mental.
  Me obriguei a ficar sozinho em lugares escuros e a melhor resposta não veio nesses lugares, veio quando estava no claro.

  Sabem aqueles lugares onde alcoólatras se reúnem? 
  Mesmo o ambiente estando iluminado me sinto no escuro.
  Sabem estes lugares onde há grande consumo de drogas? 
  Me sinto no escuro.
  Lugares onde aconteceu uma grande violência, muito sofrimento, eu me sinto no escuro.
  O incomodo é extremo, dependendo do lugar posso dizer que sinto algo que pode ser chamado de medo, mesmo não observando nenhuma ameaça no horizonte.
  Eu sei que poderia falar muito mais para vocês sobre esse mundo de "sombras"  ... se eu me atrevesse a entrar nesses mundos, teria que entrar naquelas estruturas do pensamento que sugam tudo, até a luz, não estou pronto, não sei se um dia estarei, mas posso ser sugado mesmo sem querer...tenho medo.
  [A loucura sempre esta em meu encalço]

  Claro que você deve estar pensando o que todo mundo pensa quando tenta racionalizar o desconforto de estar no escuro.
  Quando estamos sozinhos e privados da eficiência de nossa visão a imaginação aflora.
  Evidente que levo isso em consideração na maioria dos casos, por isso fico numa boa, não tenho nenhum "pavor" de ficar sozinho em casa ou no escuro.

  Outros que NÃO sentem nenhum desconforto de estar no escuro consideram a maioria da humanidade que fica desconfortável, como um bando de frouxos, pessoas com a mente fraca criando fantasias.
  [Aqui cabe uma observação, há quase sempre um grupo imune a alguma "doença" ou "sentimento" ... isso é complexo.]

  Não posso falar por outros, no meu caso vivenciei fenômenos difíceis de racionalizar, pela "logica" não dá pra simplesmente considerar tudo imaginação ou fantasia.
  Um acontecimento marcante:
  Em uma noite muito misteriosa cai da cama ou fui jogado, não sei bem, era uma beliche, machuquei as costas.
  Sei que cair da cama acontece, mas beliche tem  grade de proteção, foi a primeira e única vez que me lembro de ter caído.
  Nem lembro da queda em si.
  Minha primeira lembrança é minha mãe do meu lado, desesperada chamando meu nome.
  Família muito pobre casa pequena 5 pessoas dormindo no mesmo quarto (minha irmã Jane já havia se mudado).
  Com minha queda todos acordarem é logico/esperado.
  Até aí tudo mais ou menos normal da para racionalizar.

  Tive algum pesadelo, muito agitado cai da beliche, o barulho acordou a todos, minha mãe saltou da cama e veio em minha direção.

  E eu me sentir tão estranho?
  Não consegui dormir mais, coração acelerado, uma sensação de medo.
  O fato ocorreu por volta das 3 da madrugada, foi uma queda de uns dois metros, machuquei as costas ... da para racionalizar  que os níveis de adrenalina demorassem a baixar isso explica o sono ir embora e a taquicardia.
  O que me incomodava era a sensação de medo ... medo de que, foi só uma queda.
  De manhã o relato da minha mãe confirmou minha sensação que algo estranho demais aconteceu.
  Ela acordou agitada como se algo a forçasse acordar. 
  "Salva seu filho".     
  Foi o que ela pensa ter ouvido.   
  Viu claramente quando um vulto, uma sombra desceu do teto e caiu no meu corpo, neste momento eu sentei na cama e me atirei.
  Minha mãe tentou me socorrer, mas não tinha como.
  A principio eu havia racionalizado que a queda me deixou desacordado por algum tempo, por isso quando acordei minha mãe estava do meu lado.
  Na verdade não fiquei desacordado nem por um segundo, a queda me despertou instantaneamente, minha mãe "misteriosamente" já estava lá.

  Passei dias dormindo bem pouco.
  Ficava acordado o máximo que podia, cenas típicas daquele filme "A Hora do Pesadelo".
  Era dormir e ter pesadelos terríveis, mas tão reais.
  Meu corpo parecia que pegava fogo, ficava encharcado de suor.
  Por motivos óbvios não gosto de relembrar esses dias, essa meditação saiu totalmente de rumo...

  O importante é saber que parte do medo de muitos do escuro pode ser explicada pela psiquiatria, dependemos muito de nossa visão para nos orientarmos e ser tolhido dela nos deixa inseguros.

  Esse desconforto com a escuridão não deveria acontecer em ambientes bem seguros e conhecidos como a casa da gente.
  Conversei com inúmeras pessoas a esse respeito, são raras as que não tem sensações estranhas no escuro.
  Existe o desconforto moderado que pode chegar ao extremo o que me leva a teorizar que no escuro e em silêncio conseguimos "sintonizar" energias que nem sempre são agradáveis coisas muito alem do que supõe nossa vão psicologia.
  Para você atingir o sono profundo é preciso evitar a claridade e o barulho, nesta situação nosso cérebro inexplicavelmente entra em uma atividade alucinante ... algum dia continuamos, esse texto já saiu muito do rumo...





.